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Moda em modo algoritmo: como a inteligência artificial redesenha o setor

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Moda em modo algoritmo: como a inteligência artificial redesenha o setor

A inteligência artificial já não é promessa distante para a indústria da moda. Ela começa a mediar decisões que vão da inspiração de uma coleção à forma como o consumidor escolhe o próximo look. Como consequência, a lógica do setor muda: as marcas deixam de falar apenas com pessoas e passam a dialogar também com sistemas que filtram, recomendam e organizam tudo o que chega ao público.

Do site ao assistente: a compra mediada por IA

Durante anos, o caminho clássico foi loja física ou e-commerce. Agora, porém, entra um terceiro ator: assistentes digitais que conhecem o histórico de compras, o estilo, o orçamento e até a rotina do usuário.

Em vez de percorrer páginas de produtos, o consumidor passa a receber propostas prontas de uso, combinações entre peças que já possui e novas opções. Além disso, esses sistemas comparam automaticamente preços e condições. Assim, a disputa de relevância deixa de acontecer apenas na vitrine ou no feed e passa, também, pelo lugar que cada marca ocupa na “lista de sugestões” desses assistentes.

Branding em linguagem de dados

Com o algoritmo como mediador, a construção de marca ganha uma nova camada. Não basta convencer pela campanha; é preciso ser compreensível para máquinas.

Nesse contexto, descrição detalhada de peças, materiais, caimento, ocasião de uso e informações de durabilidade torna-se decisiva. Quanto mais preciso o cadastro, maior a chance de a coleção aparecer como recomendação coerente para o perfil certo. Por outro lado, marcas que tratam seu acervo digital de forma genérica tendem a desaparecer da seleção inicial do consumidor, mesmo que mantenham uma comunicação forte em outros canais.

Criação assistida, não substituída

Na etapa criativa, a IA funciona como um ateliê paralelo. Softwares simulam modelagens, testam cores, sugerem variações de estampa e antecipam o impacto visual de uma coleção. Dessa forma, o caminho entre ideia e protótipo encurta e o volume de testes físicos diminui.

O papel do designer, entretanto, não se dilui. Ele passa a atuar como curador das propostas geradas pela máquina. É o olhar humano que estabelece limites, escolhe o que faz sentido para a identidade da marca e introduz referências culturais, históricas e afetivas que não aparecem nos bancos de dados. Em outras palavras, a tecnologia acelera o processo, mas não define sozinha o discurso estético.

Eficiência e circularidade guiadas por inteligência

Nos bastidores, a IA se torna ferramenta central para planejar produção e estoques. Modelos de previsão cruzam vendas passadas, clima, calendário, comportamento regional e sinais de tendência para dimensionar volumes com maior precisão. Com isso, o objetivo fica claro: produzir menos excedente e depender menos de liquidações permanentes.

Ao mesmo tempo, informações estruturadas sobre composição e trajetória das peças abrem espaço para modelos mais circulares. Revenda organizada, aluguel, reparo e reaproveitamento passam a ser decisões apoiadas por dados, e não apenas ações pontuais de marketing. A peça é pensada desde o início para ter várias vidas, e não somente para a primeira compra.

Profissões em transformação

A adoção da IA também reorganiza as funções dentro das empresas. Tarefas repetitivas, como descrição padrão de produto, montagem de relatórios e testes de preço, tendem a ser automatizadas. Em contrapartida, ganham relevância perfis capazes de articular estética, negócios e leitura de dados.

Surgem, assim, funções como responsáveis por taxonomia de catálogo, especialistas em sistemas de recomendação e analistas dedicados a interpretar os sinais gerados pelos modelos. Esse trabalho orienta coleção, abastecimento e comunicação. A vantagem competitiva deixa de estar apenas em contar com uma equipe criativa talentosa e passa a incluir a capacidade de traduzir esse talento em decisões apoiadas por tecnologia.

Entre código e cultura

A inteligência artificial não inaugura uma nova moda desumanizada, nem devolve a indústria a um passado pré-digital. Em vez disso, ela cria um campo híbrido em que coleções, campanhas e decisões de produção são atravessadas por dados, sem que isso dispense sensibilidade, narrativa e leitura de contexto.

No longo prazo, o diferencial das marcas tende a ser justamente a combinação entre esses dois mundos: usar sistemas inteligentes para ganhar precisão e agilidade, enquanto preserva o que nenhuma máquina consegue replicar integralmente, a capacidade de transformar roupa em linguagem, pertencimento e desejo.

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Escrito por Ana Lisa Moreira, Diretora da Consultoria do Insper Fashion Business

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