Preço estável, risco invisível: o que os estoques de minério revelam sobre o mercado

porto com navios e minério

O minério de ferro é um dos termômetros mais sensíveis da economia global. Quando seus preços oscilam pouco, a leitura mais comum é a de estabilidade. No entanto, por trás dessa faixa estreita de negociação, forças opostas seguem em disputa. Hoje, os contratos futuros giram em torno de US$ 106 por tonelada em Singapura e 813 iuanes na bolsa de Dalian. O que parece calmaria, portanto, esconde uma tensão relevante entre custos crescentes, estoques recordes e expectativas sobre a China.

Um mercado preso entre pressões opostas

A cadeia produtiva do minério depende fortemente de energia. Por isso, com os conflitos geopolíticos no Oriente Médio pressionando os preços dos combustíveis, o custo de extração e transporte tem subido de forma consistente. A mineradora australiana Fenix Resources, por exemplo, chegou a reduzir operações por conta de restrições no fornecimento de diesel, conforme reportado pela Reuters.

Em condições normais, custos mais altos empurrariam o preço para cima. Porém, o outro lado da balança tem limitado esse movimento. Os estoques nos 47 principais portos chineses atingiram 179 milhões de toneladas no início de março, segundo a consultoria Mysteel, via InfoMoney. No fim de 2024, esse número era de 147 milhões. Ou seja, houve um salto de mais de 20% em poucos meses. Quando há excesso de oferta armazenada, compradores perdem a urgência de fechar novos contratos. Assim, a pressão altista perde força.

O papel da China na equação

A China consome mais da metade de todo o minério de ferro produzido no mundo e importa cerca de 74% da oferta global, segundo o Valor Econômico. Dessa forma, qualquer movimento na economia chinesa gera impactos imediatos em toda a cadeia de commodities.

Nos últimos meses, siderúrgicas e traders aumentaram compras antecipando uma retomada na construção civil. A China importou mais de 1,12 bilhão de toneladas nos primeiros 11 meses de 2024, alta de 4,3%. Ao mesmo tempo, as negociações entre o comprador estatal chinês e a BHP sobre o contrato de 2026 seguem em impasse. Esse dado, por sua vez, sinaliza como o país tenta administrar sua dependência de fornecedores externos.

Quando a estabilidade esconde uma decisão pendente

Mercados que se movem pouco nem sempre estão em equilíbrio real. Muitas vezes, essa faixa estreita de preços reflete apenas um momento de espera. O minério já atingiu US$ 219 por tonelada em 2021 e, desde então, perdeu mais da metade desse valor. Ainda assim, a Worldsteel projeta para 2026 uma recuperação de 1,3% na demanda global de aço, para 1,77 bilhão de toneladas.

Para empresas e profissionais que acompanham o setor, o momento exige atenção. Afinal, o silêncio do mercado não significa ausência de risco. Pelo contrário, entender o que sustenta essa aparente calmaria pode ser justamente o primeiro passo para antecipar o próximo movimento.

Escrito por Thiago Moraes, diretor Comercial da FDC Empresa Jr.

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