Durante boa parte do século XX, a moda sustentou um paradigma quase absoluto: juventude significava vanguarda. No entanto, esse eixo se desloca diante de uma transformação demográfica, econômica e cultural que redefine o desejo e o valor no setor. Em vez de uma urgência frenética por relevância imediata, a indústria observa a ascensão de um consumidor maduro, experiente e cada vez mais central no crescimento do mercado de moda e luxo.
A narrativa que emerge não celebra apenas a passagem do tempo, mas também o seu refinamento. O que se comprova, agora com dados robustos e estratégias tangíveis, é que o tempo não enfraquece o desejo — pelo contrário, ele o qualifica.
A virada demográfica e o poder econômico da geração silver
Os números apontam para uma mudança estrutural. Em 2024, consumidores com mais de 50 anos responderam por 38% do gasto global em moda. Além disso, até 2025 essa faixa etária deverá gerar 48% do crescimento incremental do consumo mundial. Nos Estados Unidos, pessoas acima dos 55 anos concentram aproximadamente 72% de toda a riqueza familiar do país. Globalmente, a população 50+ deverá representar mais de um terço da população total até 2050.
Portanto, não se trata de uma flutuação conjuntural, mas sim de uma reorganização profunda do poder econômico e simbólico que sustenta o setor.
O novo perfil de consumo: menos quantidade, mais significado
Esse consumidor maduro opera sob uma lógica distinta daquela que tem sido amplamente atribuída à Geração Z. Enquanto a geração mais jovem se move no ritmo vertiginoso das redes sociais e da experimentação estética, o consumidor acima dos 50 privilegia profundidade e significado. Compra menos, porém melhor.
Além disso, prioriza qualidade, corte, tecido, conforto e durabilidade. Valoriza a experiência física, o atendimento qualificado e o relacionamento com marcas que compreendam sua trajetória. Por isso, a decisão de compra é guiada menos pelo ruído digital e mais pela confiança e pela credibilidade construídas na relação com o produto e o discurso da marca.
Em outras palavras, não é um consumo para provar algo a alguém — é um consumo para permanecer fiel a si mesmo.
Estratégias de marca e o novo código do luxo
Diante dessa mudança, marcas globais já demonstram compreensão estratégica. A Uniqlo consolida uma filosofia de moda atemporal e funcional com sua proposta LifeWear, enquanto a New Balance transforma um ícone associado ao “dad shoe” em linguagem estética global.
Ao mesmo tempo, casas como The Row, Bottega Veneta, Loro Piana e Ferragamo apostam em elegância silenciosa, foco em materiais de excelência e narrativas de permanência — pilares do movimento conhecido como quiet luxury.
Em campanhas, o protagonismo já não está mais exclusivamente associado à juventude polida: surgem rostos vividos, presença madura e histórias reais, não como exceção, mas como afirmação estética.
O luxo que envelhece bem
Esse reposicionamento não é motivado por nostalgia, mas sim por uma reinterpretação da própria ideia de luxo. Se na última década o setor assistiu ao auge do consumo performático e da estética instantânea, agora a tendência aponta para uma busca de coerência, profundidade e longevidade.
No centro desse processo está a maturidade como ativo cultural. Em um mundo saturado de velocidade e estímulos, o silêncio sofisticado, a consistência e a elegância discreta ganham novo valor.
O futuro intergeracional da moda
A moda, portanto, não abandona a juventude, mas aprende a coexistir com outro vetor essencial de desejo. O futuro do luxo é intergeracional: combina a inquietação criativa dos jovens com o poder financeiro, cultural e simbólico de quem construiu repertório ao longo do tempo.
A próxima fase do setor será definida não pela idade biológica, mas pela idade cultural — pela capacidade de entender o tempo como aliado, não como ameaça. Se o hype foi moeda dominante do passado recente, o legado volta a ser a referência estrutural do que é considerado valioso.
A beleza de permanecer
A maturidade retorna ao centro do imaginário fashion não como concessão, mas como reconhecimento de sua força. E, ao fazê-lo, revela uma verdade que a indústria, por muito tempo, tentou esconder: a beleza não está em vencer o tempo, mas em carregá-lo com dignidade, consciência e sofisticação.
O luxo, hoje, não é mais a corrida pelo novo a qualquer custo. É, antes, a capacidade de permanecer relevante, consistente e verdadeiro — quando o brilho imediato se apaga e apenas o que resiste continua a falar.
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Escrito por Guilherme Kenzo – Coordenador do Núcleo de Negócios do Insper Fashion Business









