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Quando a casa popular vira ativo financeiro: os paradoxos da descentralização econômica

Imagem gerada em ia

A prefeitura de SP, decretou recentemente um impedimento de alugar moradias populares para plataformas digitais de turismo. Revelando um fenômeno curioso — e, de certa forma, inevitável: unidades do programa populares sendo alugadas no Airbnb

O que nasceu como política pública de moradia para famílias de baixa renda agora aparece listado, com fotos e avaliações de hóspedes, entre as opções de hospedagem temporária nas plataformas digitais. À primeira vista, é um absurdo social: imóveis subsidiados pelo Estado sendo transformados em fonte de lucro privado. Mas, por outro lado, é também um sintoma poderoso daquilo que vem definindo nossa era: a descentralização dos meios financeiros e produtivos.

O que está acontecendo com a moradia é o mesmo que ocorreu com o transporte, o crédito e até o investimento. Plataformas e fintechs estão dissolvendo fronteiras, permitindo que indivíduos acessem mercados que antes exigiam intermediação institucional. Em outras palavras, a economia tradicional está sendo reprogramada e facilitada pelo digital

O poder de inclusão e de transformação

A grande inovação das fintechs não foi tecnológica, foi cultural. Bancos digitais como Nubank, Inter e Mercado Pago transformaram a relação dos brasileiros com o dinheiro. 

No Brasil, cerca de 60 milhões de pessoas acessaram serviços financeiros pela primeira vez através de fintechs, segundo o Banco Central. Um marco significativo de uma tecnologia que descentralizou o poder de intermediação financeira, abriu espaço para novos agentes e quebrou um monopólio silencioso que concentrava não só lucros, mas decisões sobre quem podia ou não participar da economia formal.

O mesmo se vê nas plataformas de economia compartilhada. Quando o Airbnb permitiu que qualquer pessoa alugasse um quarto ou uma casa, criou uma nova camada de empreendedores urbanos, gerando renda para famílias e dinamizando economias locais. Estudos recentes da Fundação Getúlio Vargas mostram que, em 2024, a atividade do Airbnb no Brasil movimentou quase R$ 100 bilhões e apoiou mais de 600 mil empregos. Cada R$ 10 gastos em hospedagem gera outros R$ 50 na economia ao redor — do restaurante ao motorista de aplicativo.

Airbnb e o novo mapa do turismo

O caso do Airbnb ilustra bem o impacto dessa transformação. Antes restrito às capitais e balneários, o turismo se pulverizou. Pequenas cidades do interior, antes invisíveis no circuito hoteleiro, agora recebem visitantes atraídos por experiências autênticas e preços mais acessíveis. O viajante ganha diversidade; o anfitrião, oportunidade.

Mas há um lado mais complexo. A expansão desordenada do aluguel por temporada tem pressionado o mercado imobiliário em várias cidades, reduzindo a oferta de moradias para residentes e elevando aluguéis. Em Lisboa, Buenos Aires, Barcelona e até em Florianópolis, bairros inteiros se transformaram em zonas turísticas permanentes. O mesmo efeito começa a ser notado em regiões brasileiras onde a valorização dos imóveis afasta os moradores originais.

O dilema da regulação

O episódio das moradias populares mostra o quanto as linhas entre o público e o privado se tornam turvas nesse novo contexto. O apartamento subsidiado, que deveria cumprir função social, passa a operar como ativo econômico. 

Essas transformações expõem um dilema que ainda não resolvemos: como regular a descentralização sem sufocar a inovação?.

O setor financeiro vive hoje o mesmo impasse. Após o boom das fintechs, os governos perceberam que a falta de controle pode gerar brechas perigosas de lavagem de dinheiro a golpes digitais. No Brasil, o Banco Central já começou a equiparar as fintechs aos bancos tradicionais em termos de obrigações de transparência e compliance. É um movimento necessário, mas delicado: um excesso de regulação pode travar o dinamismo que justamente torna essas empresas competitivas.

Com o Airbnb e o Uber, o desafio é semelhante. Regulamentar o uso de imóveis e o trabalho por aplicativos é essencial para proteger consumidores e trabalhadores, mas a tentação de impor modelos antigos sobre estruturas novas costuma gerar distorções. 

A resposta talvez esteja no equilíbrio entre regulação inteligente e educação digital. Não adianta apenas proibir o aluguel de casas populares; é preciso revisar o sistema que torna essa prática economicamente vantajosa. 

Da mesma forma, não basta tributar o motorista de aplicativo; é preciso oferecer segurança jurídica e previdenciária a quem escolhe esse modelo de trabalho.

Conclusão: o risco de a descentralização engolir a si mesma

A descentralização dos serviços financeiros e produtivos é irreversível. A massiva adoção delas no Brasil somente demonstra a nossa capacidade singular de se incluir em transformações inovadoras, com um novo imaginário econômico: o de que qualquer pessoa pode ser um banco, uma locadora, um investidor ou uma empresa

Mas todo sistema descentralizado carrega um paradoxo: quanto mais cresce, mais precisa de coordenação e confiança para não desmoronar sob seu próprio peso. Se o entusiasmo com o “empoderamento digital” não for acompanhado de responsabilidade coletiva, ética e regulação justa, a descentralização corre o risco de engolir a si mesma transformando inclusão em exclusão e liberdade em precariedade.

Afinal, o mesmo impulso que permitiu que uma família de periferia alugar seu quarto no Airbnb pode permitir que uma construtora use o mesmo canal para especular com moradias sociais. A fronteira entre inovação e abuso é cada vez mais tênue.

Portanto, a responsabilidade da continuidade dessa tendência de descentralização das finanças passa não apenas pela consciência dos usuários, mas de uma engenharia regulatória que incentive o justo meio dessas tecnologias disruptivas. 

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Escrito por Mateus Menezes

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